Fluxos Internacionais de Capitais e
Alternativas de Políticas Econômicas e Sociais
João Machado Borges Neto
Introdução
O objetivo deste trabalho é defender a necessidade da imposição
de controles aos movimentos internacionais de capitais para tornar possível
implementar políticas que favoreçam os interesses nacionais e,
sobretudo, os interesses dos setores populares. Isso implica ir além
dos argumentos usualmente apresentados pelos defensores destes controles nos
debates recentes. Segundo estes argumentos, controles de capitais são
necessários nos países dependentes para reduzir a vulnerabilidade
externa e dar maior autonomia à formulação da política
econômica destes países, sobretudo à política monetária.
Segundo o ponto de vista adotado neste trabalho, estes argumentos são
corretos. No entanto, deixam de lado algumas questões extremamente importantes,
se temos em vista não apenas a formulação de uma política
econômica favorável ao crescimento econômico, à criação
de empregos e ao desenvolvimento em geral (o que já é muita coisa,
naturalmente), mas também uma política voltada para transformações
mais profundas nas relações sociais, e que aponte para além
da economia capitalista.
Para levar em conta também este tipo de preocupação, é
preciso ir além da argumentação mais usual a favor dos
controles de capitais. Antes de tudo, é preciso pôr em evidência
as diferenciações de interesses entre classes sociais e entre
interesses nacionais e interesses de determinadas classes. Este trabalho não
procurará, no entanto, justificar este ponto de vista básico,
a não ser de um ponto de vista bastante limitado, que é o de tentar
mostrar que a argumentação liberal que nega esta divergência
de interesses não é consistente. A existência de divergências
de interesses entre as classes sociais é, portanto, assumida como um
ponto de partida. Assim, serão enfatizadas as relações
pertinentes entre classes. O trabalho procura situar a questão dos fluxos
internacionais de capitais e do seu controle num quadro marxista.
O conceito de capital e os seus movimentos
A liberdade de movimentos dos capitais e a concepção neoclássica
de capital
O argumento básico em favor da liberdade internacional de movimentos
de capitais pode ser resumido da seguinte maneira:
a) o capital é tratado como um conjunto de bens reprodutíveis
usados na produção, isto é, como "bens de capital",
como uma "soma de riqueza produtiva";
b) os capitais tendem a fluir dos países em que obtêm um retorno
mais baixo para os países em que obtêm um retorno mais alto;
c) os retornos dos capitais dependem da sua produtividade; esta, por sua vez,
é inversamente relacionada com sua abundância (dizendo de outra
maneira, supõe-se que a "produtividade marginal" do capital
é decrescente); portanto, os rendimentos do capital tendem a ser menores
nos países mais ricos, isto é, nos países em que o estoque
de capital é mais elevado; portanto, os capitais tendem a fluir destes
países para aqueles em que o estoque de capitais é mais baixo,
isto é, para os países mais pobres;
d) esta redistribuição dos capitais no plano internacional contribuiria
para maximizar seu aproveitamento e, portanto, para melhorar a eficiência
da economia mundial no seu conjunto; a produtividade marginal do capital da
economia mundial ficaria mais elevada;
e) seriam beneficiados principalmente os países mais pobres que, obtendo
mais capital, poderiam ampliar sua capacidade produtiva; ou seja, a poupança
dos países ricos seria usada para financiar investimentos nos países
pobres, que poderiam, assim, acelerar seu crescimento .
Este argumento carece de qualquer base empírica . Entretanto, é
útil examinar seu conteúdo teórico, pois ele diz muito
sobre qual é o sentido fundamental desta discussão.
Em primeiro lugar, o raciocínio utiliza as noções de "capital"
e de "quantidade de capital", bem como de relação inversa
entre esta "quantidade" e a "produtividade marginal" (noções
próprias à escola neoclássica ou marginalista); como foi
demonstrado desde as controvérsias sobre o capital nas décadas
de 1960 e 1970, elas carecem de consistência teórica. A exposição
clássica desta concepção foi feita na obra do autor norte-americano
John Bates Clark, no fim do século XIX. Ele distingue capital e bens
de capital da seguinte maneira:
Podemos pensar no capital como uma soma de riqueza produtiva, investida em coisas
materiais que estão mudando perpetuamente - que vêm e vão
continuamente - embora o fundo permaneça. O capital então vive,
por assim dizer, por transmigração, saindo dos corpos e entrando
em outros, de novo e de novo [Clark 1899, pp. 119-20].
É com esta concepção do capital como fundo de capacidade
produtiva (ele diz "soma de riqueza produtiva"), de um capital que
transmigra e muda de forma, conservando sua quantidade, que Clark pôde
falar de "quantidade de capital" no sentido macroeconômico (ainda
que este seja composto por bens heterogêneos) para, assim, explicar a
taxa de lucro pela produtividade marginal do capital. Esta concepção,
no entanto, teve de ser abandonada pela teoria neoclássica com pretensões
de rigor a partir das "controvérsias sobre o capital", fundamentalmente
a partir das dificuldades de agregação de bens de capital heterogêneos
em um único capital definido macroeconomicamente.
De fato, alguma maneira prática teria de ser definida para explicar a
"transmigração" de que fala Clark. Se recusarmos uma
visão mística (que não é adequada a algo tão
prosaico como o capital), não há um fundo permanente de "riqueza
produtiva". Há dois momentos distintos: em um o capital é
composto por bens heterogêneos, que constituem de fato riqueza produtiva
(podemos chamá-lo de "capital produtivo"); no outro é
uma soma de valor (podemos chamá-la de "capital monetário").
Há ainda um terceiro momento, que é em geral esquecido pelos autores
neoclássicos, que é o do capital como uma soma de mercadorias
prontas para serem vendidas (podemos chamá-lo de "capital-mercadorias")
. As passagens do capital monetário para capital produtivo, e depois
do capital-mercadorias para capital monetário, dependem do sistema de
preços da economia.
Tocando no mesmo problema de outra maneira, quando consideramos o capital como
"soma de riqueza produtiva", ele é composto por um conjunto
heterogêneo de bens; só é possível medir sua "quantidade"
como "quantidade de valor". Assim, não é possível
agregar "bens de capital" heterogêneos em um único capital,
definido macroeconomicamente, sem passar pelos preços. O conjunto dos
preços da economia só pode ser determinado num modelo de equilíbrio
geral; logo, não é possível determinar a remuneração
do capital, em geral chamada de taxa de juro ou de lucro, que é um preço
que tem de ser determinado em conjunto com todos os outros, a partir de sua
"produtividade marginal". A tentativa de fazê-lo constitui um
raciocínio circular: para que a "produtividade marginal" seja
determinada, todos os preços já devem ser conhecidos e, portanto,
também a remuneração do capital.
Para reforçar as dificuldades desta concepção neoclássica
de capital, é possível demonstrar que não existe em geral
uma relação inversa entre a "quantidade de capital"
e sua "produtividade marginal". Os autores fundamentais no estabelecimento
destes resultados são Piero Sraffa, em seu livro de 1960 [Sraffa 1985]
e Pierangelo Garegnani, em diversos trabalhos, dos quais podemos considerar
mais importantes os de 1970, 1990 e 2000 [Garegnani 1970, 1990 e 2000].
Por outro lado, Luigi Pasinetti, além de ter tido também um papel
central nas "controvérsias do capital", faz uma demonstração
extremamente simples de por que, no contexto específico das relações
internacionais, não se pode esperar que o capital flua, em geral, dos
países mais ricos para os mais pobres. Pasinetti mostra que o capital
deve fluir, na verdade, dos países que têm menor crescimento econômico
para os que têm maior crescimento (uma vez que há uma relação
positiva entre taxa de lucro, ou remuneração do capital, e taxa
de crescimento) [Pasinetti 1981, especialmente pp. 247-249]. Esta última
relação, aliás - entre taxa de crescimento e atração
de capitais - pode ser estabelecida empiricamente, ao contrário da relação
entre escassez de capitais e atração de capitais .
Levando em conta todas as questões mencionadas, não é possível
tratar coerentemente o capital como uma "quantidade" composta por
uma "soma de riqueza produtiva", e muito menos estabelecer uma relação
inversa entre esta quantidade e sua produtividade marginal. Todo o argumento
em favor da liberdade dos fluxos internacionais de capitais cai por terra.
A concepção marxista de capital e a crítica à concepção
neoclássica
É interessante observar que a concepção de John Bates Clark,
de um capital que "transmigra", saindo de uns corpos e entrando em
outros, aproxima-se de certa forma da idéia das metamorfoses do capital
de Marx. Além disto, corresponde bastante a certos aspectos do funcionamento
real de uma economia capitalista: é verdade que o capital, enquanto fundo
de valor, assume várias formas; tanto é dinheiro, como determinado
estoque de "bens de capital", como mercadorias produzidas que serão
vendidas. A partir daí, é útil comparar a concepção
de capital de Clark com a de Marx; isto ajuda a clarear os problemas da concepção
de capital neoclássica em geral.
Marx concebe o capital a partir do valor e do dinheiro. O valor é para
ele uma relação social reificada, fetichizada; o trabalho humano
é representado como propriedade de uma coisa, isto é, como valor
da mercadoria. O valor, formado a partir da reificação das relações
entre os produtores autônomos, tem uma substância social, o trabalho
humano abstrato. Este se desenvolve a partir da generalização
das relações mercantis, que leva à indiferença diante
do conteúdo concreto do trabalho. O dinheiro, por outro lado, representa
o valor; é a materialização, a concretização
do trabalho abstrato. O capital é valor que busca maior valorização,
e que se autonomiza, levando mais longe a fetichização que caracteriza
a economia mercantil.
Marx define assim o capital como uma substância social - o valor - que
encontra uma representação autônoma no dinheiro e se movimenta,
mudando de forma, de corpo físico, para se valorizar (assume as formas
de capital monetário, capital produtivo, capital-nercadorias). O capital
só pode ser entendido, portanto, como um movimento; e a idéia
de que muda continuamente de forma é essencial. Isto, naturalmente, já
marca uma diferença enorme com relação às maneiras
pelas quais o capital é em geral conceptualizado - na economia neoclássica,
por exemplo, mas não apenas nela. O que se costuma fazer é contrapor
dois tipos de capital: capital como um estoque de bens de capital, e capital
monetário ou financeiro . Para Marx, "bens de capital" e capital
monetário são duas formas do capital, que só têm
de fato o caráter de capital no interior do movimento de conjunto. Além
disso, sendo substância social, o capital só existe a partir de
relações sociais historicamente específicas, como reificação
delas.
Mas o capital não é apenas movimento, mudança contínua
de forma. Este movimento é autônomo: o capital é uma substância
semovente, um sujeito automático. É uma realidade social - formada
pela reificação de relações sociais - que impõe
uma marca a todo o funcionamento da economia, que lhe impõe o objetivo
de acumulação de riqueza na forma geral, abstrata, de dinheiro
- de dinheiro como capital. Sendo o objetivo do capital a sua valorização,
o objetivo da economia capitalista não é, portanto, a produção
de bens para o seu posterior consumo, ou a "maximização da
utilidade" trazida por este consumo. Além disto, este fato não
se limita a impor uma finalidade para a produção capitalista distinta
da satisfação das necessidades humanas; impõe também
uma dinâmica, em que os indivíduos são subordinados ao movimento
do capital. Tudo isto se contrapõe diretamente à noção
neoclássica em que o capital é apenas uma coisa, ou um conjunto
de coisas, que os indivíduos utilizam para produzir de modo a maximizar
sua satisfação.
Para a concepção de Marx, as passagens do capital monetário
a capital produtivo, e do capital-mercadorias a capital monetário, ou
seja, as metamorfoses que o capital sofre na circulação, são
perfeitamente coerentes. A noção de valor que se movimenta, mudando
de forma, justifica a unidade dos três momentos. É claro que supõe
um dado sistema de preços; esta idéia está já incluída
na conceptualização do capital como valor em movimento. Por outro
lado, para Clark, que concebe o capital como fundo de capacidade produtiva (ele
diz "soma de riqueza produtiva"), que teria uma "produtividade
marginal", que deveria ser usada para determinar a taxa de lucro (ou de
juro), e a partir daí o sistema de preços, a utilização
do sistema de preços para fazer estas passagens implica um raciocínio
circular ilegítimo.
Outra diferença fundamental entre a concepção de Marx e
a de Clark é que para Marx, como vimos, o capital como substância
(ou fundo) é valor, relação social, manifestação
do caráter peculiar do trabalho que produz mercadorias; de modo algum
"capacidade" ou "força produtiva" (embora, quando
na forma de capital produtivo, este valor esteja associado a uma capacidade
produtiva). O valor de um estoque de capital pode mudar sem que a capacidade
produtiva dos meios de produção em que ele está investido
se altere (por exemplo, se há progresso técnico na produção
das máquinas que o compõem). Ou, inversamente, coleções
de "bens de capital" com capacidade produtiva muito diferente podem
ter o mesmo valor (e transferir para as mercadorias produzidas o mesmo valor).
Para Marx, a capacidade produtiva é uma propriedade dos valores de uso;
a remuneração do capital, por outro lado, diz respeito às
propriedades sociais do capital, ao capital enquanto valor. O erro da concepção
de Clark está na própria concepção de capital como
capacidade produtiva que é remunerada enquanto tal; está em desconhecer
o duplo caráter do trabalho produtor de mercadorias, e todos os seus
desdobramentos, isto é, em desconhecer as contraposições
entre trabalho concreto e trabalho abstrato, entre processo material de produção
e processo de valorização, entre riqueza material e riqueza capitalista,
entre meios de produção (com sua capacidade produtiva) e capital
constante (com seu caráter de valor) . A concepção de capital
de Clark confunde valor de uso e valor; atribui ao caráter físico
do capital, de riqueza produtiva (isto é, de produtor de valores de uso),
quando na forma de capital produtivo um suposto caráter de produtor de
valor. Isto permite, como é bem sabido, eliminar a noção
de exploração do trabalho e, portanto, de contraposição
de interesses entre as classes sociais fundamentais.
O erro da concepção de Clark, assim, está em querer vincular
diretamente o capital como valor à capacidade produtiva material, não
está na agregação dos bens de capital, e nem na idéia
de um fundo dotado da faculdade de "transmigração"!
Sem pretender opinar sobre qual é a melhor maneira de tratar o capital
no contexto neoclássico, podemos dizer que a questão da agregação
ou da desagregação pouca diferença faz.
Este ponto tem uma relação direta com o tema dos fluxos internacionais
de capitais. É certo que os capitais buscam maior valorização,
ou seja, maior taxa de lucro ou de juro (dadas outras questões de interesse,
como, por exemplo, o risco envolvido). Mas o lucro pode ser maior ou menor sem
que haja nenhuma variação da capacidade produtiva, e não
há nenhuma relação entre "quantidade de capital"
(ou "intensidade em capital" da produção) e lucro. Este
foi um dos pontos centrais da demonstração de Sraffa [Sraffa 1985],
e é retomado com clareza, por exemplo, por Pasinetti [Pasinetti 1981].
Assim, os capitais podem se dirigir a certos países porque a taxa de
lucro (ou de juro) é mais alta, sem que isto tenha relação
direta alguma com a "pobreza" ou a "riqueza" do país.
E o ingresso de capitais pode se fazer sem que isto modifique em nada a capacidade
produtiva do país. Este último ponto, aliás, aparece claramente
quando se diz, por exemplo, que a entrada de "capitais especulativos"
não é benéfica. Entretanto, a própria entrada de
capitais "produtivos", de IDE (investimento direto estrangeiro) pode
não ser vantajosa.
O mercado e o bem-estar segundo a economia neoclássica
O argumento contrário ao controle dos movimentos de capitais é
parte de um argumento mais geral em favor da maior liberdade possível
para o funcionamento dos mercados, baseado na afirmação da existência
de um vínculo direto entre mercado e bem-estar. A demonstração
deste vínculo foi feita pela economia neoclássica através
de dois teoremas, em geral chamados de "teoremas da economia do bem-estar".
O primeiro afirma que um equilíbrio em mercados competitivos é
Pareto-eficiente; o segundo, que qualquer alocação de recursos
Pareto-eficiente pode ser desenvolvida como um equilíbrio de mercados
competitivos.
As noções centrais destes teoremas são, evidentemente,
a de equilíbrio de mercados competitivos e a de Pareto-eficiência.
Comecemos pela segunda: uma alocação de recursos é Pareto-eficiente
(ou constitui um "ótimo de Pareto") se a situação
(em termos de utilidade, ou satisfação) de nenhum agente pode
ser melhorada sem que a de algum outro piore. Para dar um exemplo que mostra
a precariedade do conteúdo desta definição: uma situação
na qual um único indivíduo detenha todos os recursos da economia
sem estar saciado é Pareto-eficiente, pois ceder qualquer recurso para
algum outro indivíduo reduziria a satisfação do agente
que tem tudo. É claro que é um abuso relacionar um "ótimo
de Pareto" com bem-estar, que é um termo que só faz sentido
se aplicado a toda a sociedade. Os defensores desta noção em geral
reconhecem, hoje em dia, que ela representa apenas um dos sentidos possíveis
da eficiência; e que seu uso só pode ser justificado pela dificuldade
de encontrar outro conceito que seja operacional. No entanto, o nome "economia
do bem-estar" continua a ser usado para designar este tipo de construção
teórica.
Já a noção de equilíbrio em mercados competitivos,
ou simplesmente equilíbrio competitivo (derivada de Walras), significa
um vetor de preços com base nos quais a oferta e a demanda se equilibram
em todos os mercados (ou, dizendo de uma maneira mais técnica e precisa,
para os quais não existe nenhum bem que tenha demanda líquida
positiva - neste caso, admite-se que pode haver bens não desejados, para
os quais a demanda líquida será nula ou negativa; consequentemente,
seu preço será zero).
Não cabe aqui fazer uma discussão extensa dessas noções,
e dos problemas implicados por elas. Basta observar o seguinte: em primeiro
lugar, toda esta construção se baseia numa concepção
de capital como coisa, como bens de capital apenas, que desconhece as relações
sociais envolvidas e o vínculo contraditório entre meios de produção
(capacidade produtiva) e valor. Com isto, no lugar de representar a economia
capitalista propriamente, isto é, um conjunto de relações
dominado pela busca da valorização do capital, supõe um
sistema de trocas generalizadas em que todos os participantes buscam maximizar
suas utilidade, e em que não há (nem pode haver) exploração.
Em segundo lugar, a concepção neoclássica de capital tem
os graves problemas de consistência mencionados acima .
E em terceiro lugar, mesmo aceitando o modelo teórico neoclássico
como ponto de partida, os teoremas neoclássicos da existência do
equilíbrio geral e de sua otimalidade têm pouco significado. É
possível demonstrar a existência de um equilíbrio competitivo
para uma dotação inicial de recursos, mas apenas fazendo hipóteses
muito restritivas, e de fato completamente irrealistas (uma das hipóteses
básicas é a da inexistência de rendimentos crescentes de
escala; ora, qualquer observação da realidade sugere que a regra
deve ser, ao contrário, a existência desse tipo de rendimentos).
Mais difícil ainda é demonstrar a tendência ao alcance deste
equilíbrio por parte de uma economia qualquer (trata-se do problema conhecido
como da "estabilidade do equilíbrio", numa linguagem matemática).
De fato, o que se demonstrou é que as condições nas quais
é possível garantir a existência de um movimento na direção
deste equilíbrio são tão restritivas que toda a construção
carece de interesse prático. Com isso, além de a noção
mesma de Pareto-eficiência ser um critério de avaliação
muito discutível, a vinculação entre ela e o funcionamento
dos mercados não pode ser fundamentada.
Além disso, há uma série de situações em
que já foi demonstrado que não há equilíbrio competitivo
ou, ainda que ele exista, que não será Pareto-eficiente. Dentre
estas situações estão a existência de mercados incompletos,
de bens públicos, de externalidades (isto é, efeitos de alguma
opção econômica que não passem pelo mercado, como,
por exemplo, a poluição provocada por uma empresa, que não
constitui custo para ela), de assimetria nas informações. Todas
estas situações, obviamente, estão sempre presentes, se
queremos um mínimo de realismo. Dizendo de outra maneira: além
das diversas restrições irrealistas necessárias para a
prova da existência do equilíbrio geral e do seu caráter
Pareto-eficiente, a exigência de que não haja incompletude dos
mercados, bens públicos, externalidades ou assimetria de informações
significa na verdade que os mercados devem ter um funcionamento perfeito, e
serem capazes de absorver todas as relações econômicas (para
que não haja nem externalidades nem bens públicos). Obviamente,
falar de irrealismo para um modelo com estas características é
um claro understatement.
Mais fundamentalmente ainda, toda a construção do equilíbrio
neoclássico cai por terra se admitirmos a existência da incerteza
no sentido usado, entre outros, por Keynes .
A rigor, os teoremas neoclássicos do equilíbrio geral podem ser
resumidos da seguinte maneira: supondo que a economia capitalista possa ser
representada como um sistema de trocas generalizadas; fazendo as hipóteses
necessárias para que os mercados funcionem de modo a garantir a existência
de um equilíbrio geral, bem como sua otimalidade no sentido de Pareto;
supondo que o critério de Pareto seja aceito como expressão do
bem-estar; e supondo ainda todas as condições necessárias
para haver uma convergência dos preços para o vetor do equilíbrio
geral, então podemos concluir que o livre funcionamento dos mercados
garante o máximo de bem-estar. É difícil imaginar uma construção
teórica mais tautológica.
A liberdade de movimentos de capitais como ideologia
O argumento de que a liberdade de movimentos de capitais promove maior bem-estar,
portanto, não dispõe de uma fundamentação teórica
coerente, nem tem base empírica. De fato, é ideologia; aliás,
todo o modelo teórico neoclássico cumpre uma função
eminentemente ideológica. É isto que explica o fato de que, ainda
que os teóricos que se pretendem rigorosos tenham abandonado (nas suas
obras esotéricas) as formulações que se baseiam na agregação
dos diversos capitais em uma entidade macroeconômica, para a partir daí
falar na sua "produtividade marginal", estas formulações
continuarem a ser encontradas abundantemente. Em particular, a macroeconomia
de corte neoclássico usa modelos de economias que têm um único
bem, ao mesmo tempo meio de produção e de consumo, de modo a não
precisar agregar "bens de capital" heterogêneos. É também
o caráter eminentemente ideológico das formulações
neoclássicas que explica que, apesar de todos os teóricos hoje
em dia reconhecerem que a eficiência (ou otimalidade) de Pareto não
implica bem-estar, esses mesmos teóricos continuem a incluir estas construções
na "economia do bem-estar", fomentando, portanto, a confusão.
A ideologia da liberalização financeira eleva ao máximo
o tratamento do capital como coisa, ou seja, o fetichismo. E o caráter
irracionalista desta ideologia fica claro quando vemos que uma de suas afirmações
básicas é a de que as soluções produzidas pelos
mercados são em geral mais eficientes e levam a mais bem-estar do que
as que implicam alguma intervenção do Estado. Ora, trata-se, portanto,
de defender a concepção de que um processo de regulação
inconsciente, em que os participantes não têm controle sobre os
resultados de suas ações, é em geral melhor do que processos
que incluem algum tipo de planejamento e de controle.
Como qualquer ideologia, a liberalização financeira cumpre uma
função prática. Neste caso, a função é
bastante visível: evitar a possibilidade de que controles por parte do
Estado imponham restrições à busca, por parte dos capitais,
dos maiores ganhos possíveis. É claro que a total liberdade é
vantajosa para os capitais, para que eles possam tentar aproveitar todas as
oportunidades; ela implica uma ampliação do poder dos capitais
- inclusive do poder de pressionar os governos para adaptarem as políticas
implementadas aos seus interesses. Tratando especificamente de um aspecto da
liberalização financeira, isto é, da liberdade para os
fluxos internacionais de capitais: estes não se dirigem aos diversos
países para fazer filantropia. Este fato óbvio induz qualquer
governo preocupado com a defesa dos interesses nacionais a impor condições
para recebê-los ou para deixá-los sair. Ora, nada melhor para ajudar
a evitá-lo do que uma ideologia que diz que os países receptores
de capitais são sempre beneficiados.
Como toda ideologia, esta se apóia num aspecto da realidade. É
verdade que o ingresso de capitais em um país pode, sob certas condições,
significar ampliação da sua capacidade produtiva, favorecer a
transferência de tecnologia e, logo, acelerar o seu desenvolvimento. É
verdade também que mesmo o ingresso de capitais para financiar o consumo
pode ser útil em determinadas circunstâncias de curto prazo. O
ingresso de capitais significa ingresso de valor. Dependendo de a que corresponda
em termos de ingresso de valores de uso, do seu impacto geral sobre a economia
e sobre o conjunto das relações sociais, sem esquecer das correlações
de forças entre as classes, ele pode ajudar. Mas do mesmo modo, podemos
dizer: não há garantia de que, em qualquer caso, o ingresso de
capitais se traduza em ampliação da capacidade produtiva, ou da
produtividade. Menos ainda que implique sempre transferência de tecnologia.
Enquanto valor, o capital pode representar coisas muito diferentes em termos
de "capacidade produtiva". E pode não representar capacidade
produtiva alguma.
Uma questão particularmente importante é que é preciso
examinar qual será o impacto do ingresso de capitais em termos de transferências
de valor entre os países. Esta questão não existe para
a economia neoclássica, que não distingue preços e valores.
Mas é algo bastante conhecido na vida real. Empresas subsidiárias
costumam realizar transações com suas matrizes subfaturando ou
superfaturando os bens transacionados; em especial, empresas que controlam a
comercialização de determinados produtos de um país podem
contribuir para rebaixar seus preços no mercado internacional.
Por outro lado, em algum momento, os capitais que entram devem, em princípio,
sair. É evidente que aí há um problema sério. Qual
será a conseqüência desta saída? Quais valores de uso
terão de sair para viabilizar a saída do valor-capital? Quais
serão as conseqüências nas relações sociais
e políticas?
Em resumo: o ingresso de capitais pode ser útil a um país. O que
não é possível é transformar este possibilidade
em regra geral, independentemente das condições em que o ingresso
se dá, de seus impactos totais, das condições em que eles
podem sair depois. No modelo de equilíbrio geral walrasiano (no qual,
aliás, não há propriamente capital, mas apenas bens de
capital), em condições muito irrealistas, existe um equilíbrio
geral no qual a otimalidade de Pareto se verifica. Transações
de bens de capital, se realizadas, são sempre benéficas a todos.
A motivação do lucro (cuja busca se destina a maximizar a utilidade
dos que recebem os resultados das empresas) é sempre compatibilizada
pelo mercado com o interesse geral. Ora, isto não tem nada a ver com
os fluxos de capitais do mundo real.
Voltaremos a comentar a lógica ideológica do argumento em favor
da liberdade dos movimentos internacionais de capitais adiante. Antes disso,
é útil fazer um retrospecto da evolução das concepções
de política econômica ao longo do século XX, para situar
a questão dos movimentos internacionais de capitais neste contexto.
Uma visão histórica
Os bons tempos de outrora para o liberalismo
A defesa da liberdade de movimentos de capitais feita hoje faz parte de um movimento
político-econômico cujo grande objetivo é derrotar, e se
possível eliminar, as concepções keynesianas muito influentes
até os anos 1970, e restaurar as condições para fazer política
econômica que vigoravam no fim do século XIX e no início
do século XX, antes da I Guerra Mundial. Ou pelo menos chegar perto delas,
já que a história não permite uma volta atrás completa.
Este movimento anti-keynesiano pelo regresso histórico é o que
costuma ser chamado de neoliberalismo.
Antes da I Guerra Mundial, a política econômica dos diversos países
capitalistas ocupava-se essencialmente de questões que interessavam às
classes dominantes: cuidar das reservas de ouro, de modo manter a conversibilidade
das moedas e a garantir os fluxos internacionais de mercadorias e de capitais,
defender o sistema bancário, regular as taxas de juros de acordo com
estes objetivos, garantir a solvência dos Estados, praticar a disciplina
fiscal. Não se pensava, em geral, que a política econômica
devesse almejar "objetivos sociais". O desemprego ou a má distribuição
de renda, por exemplo, não eram considerados de responsabilidade do Estado;
eram tratados pela visão dominante como problemas privados e, no limite,
individuais. Eram associados à preguiça ou ao banditismo. Para
a defesa desta visão, a teoria econômica neoclássica, que
estava se tornando hegemônica, ajudava muito. Referendava a desconsideração
de objetivos sociais na política econômica.
Por exemplo: esta teoria afirmava que todo o desemprego existente era voluntário
(isto é, os desempregados estavam nesta situação porque
preferiam não trabalhar pelo salário que lhes era oferecido no
mercado; ou tinham escolhido individualmente o desemprego, ou foram obrigados
a isto por seus sindicatos). Admitia-se a possibilidade do desemprego friccional,
isto é, do caso de pessoas que estavam em trânsito entre um posto
de trabalho e outro, que ainda não haviam encontrado a vaga que esperava
por elas, desde que aceitassem o salário devido. Mas esta era uma situação
meramente transitória e, portanto, pouco importante. O Estado poderia
fazer alguma coisa para reduzi-la - por exemplo, contribuir para melhorar a
comunicação entre empregadores e trabalhadores -, mas isto não
era propriamente de política econômica.
Esta visão idealizada do mercado de trabalho era parte da concepção
geral liberal de que os mercados se auto-regulam da melhor maneira: a oferta
cria, no global, sua própria demanda (lei de Say), e o equilíbrio
atingido a partir do mercado garante a maior satisfação social
possível (o ótimo de Pareto, que supõe, entre outras coisas,
que a distribuição de riqueza é dada - dizia-se que não
cabia à ciência econômica questionar esta distribuição).
O Estado não precisava - de fato, não devia - preocupar-se com
problemas sociais. Assim, não havia risco de os governos violarem os
interesses dominantes. A política econômica era domínio
exclusivo de banqueiros e congêneres (entre estes, já na época
os especuladores tinham um lugar de destaque).
É certo que já havia então alguma ampliação
dos espaços democráticos nos países capitalistas centrais
e em parte dos países dependentes; alguns grandes partidos operários
já tinham força eleitoral. Naturalmente, o movimento operário
recusava a visão neoclássica da economia, mas continuava basicamente
exterior ao poder de Estado. Na sua luta contra a sociedade capitalista, defendia
reformas e uma revolução social, mas não interferia nos
debates de política econômica da época, ainda que se preocupasse
com as condições de vida imediatas da população.
Assim, as equipes econômicas dos governos ficavam livres para tratar apenas
dos problemas que interessavam às classes dominantes.
O desafio keynesiano
A descrição acima, embora bastante simplificada, é suficiente
para caracterizar o clima geral da teoria e da política econômicas
que prevalecia antes da I Guerra Mundial. Era a belle époque do liberalismo
econômico. Mas o desenvolvimento do movimento operário, a grande
depressão dos anos 1930 e, no campo especificamente teórico, a
publicação em 1936 da Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro,
por John Maynard Keynes, acabaram com ele.
Keynes percebeu que a teoria dominante levava a conclusões absurdas,
e procurou mostrar que suas bases eram falsas. Atacou, em particular, a lei
de Say, a idéia da neutralidade da moeda (isto é, a idéia
de que a moeda não tem influência sobre a economia real) e a visão
do funcionamento do mercado de trabalho resumida acima. Fez uma reconstrução
teórica de enormes implicações políticas práticas.
Fundamentou a visão de que o Estado precisa intervir para corrigir o
funcionamento dos mercados, e especialmente para minorar "os dois principais
defeitos do mundo econômico em que vivemos": "a sua incapacidade
para garantir o pleno-emprego e a sua arbitrária e desigual distribuição
da riqueza e dos rendimentos" [Keynes 1970, p. 351]. Recomendou uma intervenção
regular dos governos para sustentar a demanda agregada, com políticas
fiscais e monetárias, bem como para melhorar a distribuição
da renda. Defendeu especialmente um esforço permanente para manter baixas
as taxas de juros; isto contribuiria tanto para ampliar o emprego quanto para
reduzir a remuneração dos capitais e, portanto, para reduzir as
excessivas desigualdades de renda e de riqueza. Como condição
para os governos terem autonomia para implementar as políticas econômicas
adequadas a cada país, defendeu o controle sobre os movimentos internacionais
de capitais.
Desta maneira, objetivos sociais básicos, como ampliar o emprego e melhorar
a distribuição de renda, foram incorporados ao escopo da política
econômica dominante nos países capitalistas. Esta mensagem se beneficiou
das condições político-sociais vigentes durante a Grande
Depressão e depois da II Guerra, e teve um imenso impacto (embora não
tenha sido inteiramente assimilada pelos meios econômicos dominantes -
longe disso). No caso dos países atrasados, ou dependentes, ela favoreceu
o desenvolvimento de uma concepção de intervenção
do Estado para favorecer o desenvolvimento econômico - o desenvolvimentismo.
Para o argumento que desenvolvemos neste trabalho, a principal conseqüência
foi a incorporação de objetivos nacionais e sociais ao escopo
da política econômica dos países capitalistas. A política
econômica se politizou, portanto; passou ser debatida, por exemplo, por
sindicatos, deixou de ser assunto apenas de banqueiros, especuladores e outros
membros das classes dominantes. Ficou claro, desta forma, que a política
macroeconômica não é neutra; pode favorecer interesses de
uma ou outra classe social. A partir daí, os interesses das classes dominantes
poderiam ser, eventualmente, contrariados. Esta possibilidade ganha relevo quando
levamos em conta que a força social dos trabalhadores assalariados cresce
em uma situação de pleno emprego. Esta força, ademais,
poderia vir a ser usada para contestar o sistema.
Seria um grande exagero dizer que as classes dominantes foram em geral prejudicadas
pela política econômica de inspiração keynesiana,
posta em prática nos países capitalistas depois da II Guerra Mundial.
Keynes, aliás, foi explicitamente um reformador do capitalismo, e sempre
defendeu este sistema como o mais favorável para a humanidade (desde
que os dois problemas básicos citados fossem corrigidos). Embora visse
com reservas o papel dos rentistas (chegou a defender a "eutanásia
dos rentistas"), valorizava muito o papel dos empresários capitalistas.
Além disso, o keynesianismo aplicado na prática foi muito menos
radical do que o seu formulador. Assim, as classes dominantes se beneficiaram
- mas não o fizeram sozinhas. Com o grande progresso tecnológico
dos trinta anos que se seguiram a 1945, os assalariados e as camadas populares
também ganharam alguma coisa, nos países capitalistas centrais
e em boa parte dos dependentes.
Esta mudança nunca foi aceita pelos saudosistas da velha ordem e da velha
ortodoxia. Durante anos, os (neo) liberais foram extremamente minoritários;
mas a crise inflacionária da década de 1970 devolveu-lhes credibilidade
e influência. Desde os anos 1980 tornaram-se dominantes nos países
capitalistas; a derrocada da URSS e de seu campo reforçou-os ainda mais.
O novo liberalismo e o argumento da ineficácia do governo
Não é possível tratar em detalhe os argumentos teóricos
esgrimidos desde os anos 1960 por Milton Friedman e outros liberais obstinados.
Para os objetivos deste trabalho, o mais importante deles é a afirmação
de que a capacidade de intervenção do Estado em questões
como o volume global de emprego se restringiria apenas ao curto prazo. Ou seja:
o governo só poderia fazer a economia se desviar de sua trajetória
de longo prazo provisoriamente, e com custos severos. Por exemplo, é
possível conter o desemprego abaixo de sua taxa natural (o conceito de
taxa natural de desemprego é uma contribuição teórica
chave de Friedman) por algum tempo, mas o custo disto seria uma aceleração
inflacionária. A tentativa de reduzir artificialmente o desemprego terminaria
frustrada, e a desorganização resultante da escalada inflacionária
prejudicaria a trajetória de longo prazo da economia.
A partir da década de 1970, sob a liderança de Robert Lucas, a
escola chamada de "nova economia clássica", formada a partir
da idéia das "expectativas racionais", reforçou o campo
liberal ("economia clássica" era como Keynes chamava a economia
ortodoxa de seu tempo; Lucas e seus correligionários pretenderam explicitamente
voltar a esta ortodoxia). Esta escola adotou a taxa natural de desemprego e
radicalizou as concepções friedmanianas. Com base na hipótese
de que os mercados se equilibram todo o tempo , ela afirma que o governo só
pode influenciar a economia real, mesmo no curto prazo, se surpreender os agentes
econômicos. O efeito disto, no entanto, seria ainda pior do que na análise
de Friedman: ao retorno da economia à sua trajetória natural somar-se-ia
a questão-chave da perda de credibilidade das autoridades econômicas.
Apesar disto, afirma-se que os governos tentarão fazer coisas deste tipo,
uma vez que, pressionados por horizontes eleitorais de curto prazo, estarão
dispostos a sacrificar o futuro para ganhar dividendos políticos no presente.
Por razões que é impossível comentar aqui, as concepções
de Friedman e Lucas tornaram-se dominantes entre os macroeconomistas ortodoxos.
Sem pretender debatê-las a fundo, é útil assinalar que o
conceito de taxa natural de desemprego é muito problemático. Em
primeiro lugar, para que fosse empírica e praticamente significativo,
a taxa deveria ter certa estabilidade; mas a "taxa de desemprego que não
acelera a inflação" (versão mais moderna do conceito)
tem variado de forma muito acentuada em todos os países, sem que haja
em geral boas explicações para isto. Além disso, com ela
voltamos à teoria implausível de que o desemprego é voluntário:
na definição de Friedman, a taxa natural de desemprego é
aquela em que há equilíbrio entre oferta e demanda de mão-de-obra
(com os trabalhadores avaliando corretamente seus salários reais).
Em resumo, neoliberais como Friedman e Lucas procuraram demonstrar a inconveniência
da intervenção do Estado na economia e a conveniência de
confiar nos mercados. Com isto, tentavam também reverter a politização
e inclusão de temas nacionais e sociais na economia, típica do
keynesianismo. As questões econômicas, separadas ao máximo
do Estado, poderiam ser tratadas como questões "técnicas",
ser entregues a especialistas e colocadas longe dos olhos do público.
Um exemplo deste esforço para tratar "tecnicamente" os temas
econômicos é o costume de fazer a separação entre
o "econômico" e o "social", tão comum hoje
em dia. No "social" haveria ainda opções políticas
a fazer (embora mesmo neste terreno haja uma pressão para um tratamento
mais "técnico").
A liberalização financeira que cresceu nas últimas décadas
representa mais um passo da reação anti-keynesiana, mais um passo
para reduzir ao mínimo a intervenção do Estado nos assuntos
econômicos.
O centro do debate
Liberalismo x controle pelo Estado
Uma maneira de interpretar o núcleo do debate que opõe liberais
a defensores da necessidade de intervenção do Estado é
examinar o significado desta questão à luz das concepções
econômicas de Marx mencionadas acima.
O desenvolvimento da economia mercantil-capitalista pode ser visto como um processo
de crescente fetichização das relações sociais:
elas se autonomizam e constituem um poder impessoal, aparentemente objetivo,
imposto a todos os indivíduos. A submissão dos indivíduos
aos mercados ou, melhor ainda, ao mercado tratado de forma quase mística,
é o exemplo máximo da inversão da relação
sujeito-objeto que caracteriza o fetichismo: as relações estabelecidas
entre os agentes econômicos são autonomizadas em um mercado que
é uma coisa impessoal e, ao mesmo tempo, um sujeito, uma vez que dirige
as ações dos indivíduos; os indivíduos humanos,
subordinados, tornam-se objeto da dominação pelo mercado. Nesta
fetichização das relações sociais, todos perdem
alguma coisa da sua humanidade. No entanto, as perdas são muito desiguais,
e os proprietários de capital têm muitas vantagens. Não
têm autonomia em relação ao mercado; mas são em geral
beneficiados por ele, pelo menos no plano da distribuição da riqueza
social e da possibilidade de desfrutar o consumo dos bens produzidos. Não
é de espantar que se sintam à vontade neste mundo, e queiram defendê-lo.
Por outro lado, a intervenção do Estado na economia contribui
para recuperar algum controle sobre o seu funcionamento global, altera em alguma
medida as relações sociais; reduz o fetichismo. Ao lado do mercado
impessoalizado, o Estado torna-se um sujeito econômico que tem rostos,
identidades, que pode receber cobranças - deve até mesmo ser submetido
a votações. Isto é um aspecto da politização
da economia. A politização por si mesma já é vista
como um problema para quem defende uma ordem e quer considerá-la imutável.
Pior ainda é que junto com ela vem a possibilidade de que interesses
dos proprietários de capitais sejam contrariados. O liberalismo econômico,
ao se opor ao máximo à ação do Estado e à
politização da economia, representa a política econômica
dos grandes capitais e, em particular, dos capitais financeiros.
Ao lado da argumentação em favor do máximo de mercado e
do mínimo de Estado, o liberalismo tem proposto também regras
que reduzem ao máximo as possibilidades de intervenção
do Estado. Um exemplo é instituição de um Banco Central
independente (ou autônomo) do governo eleito. Outro exemplo são
as regras fiscais que restringem enormemente as margens para a política
fiscal (como a priorização do objetivo de alcançar determinado
superávit primário). E outro ainda é a liberdade para os
fluxos internacionais de capitais. A liberalização financeira
tem um papel de disciplinar a administração pública, por
meio da ameaça permanente de saída de capitais diante de políticas
"irresponsáveis" [Cardim de Carvalho e Sicsú, 2004].
Naturalmente, políticas "irresponsáveis" neste contexto
são todas as que contrariam os interesses dos mercados financeiros.
Esta afirmação do papel "disciplinador" da liberalização
financeira chama a atenção para uma das questões centrais
em debate: a liberdade de movimentos de capitais aumenta o poder dos capitalistas
financeiros; reduz o poder dos Estados, na medida em que limita sua autonomia,
espacialmente a possibilidade de que possa implementar políticas que
invertam as prioridades usuais, isto é, que favoreçam interesses
populares. A ampliação do poder dos capitalistas, aliás,
fica bem clara com a maneira pela qual os economistas liberais brasileiros têm
explicado que a política monetária deve se concentrar em controlar
a inflação, e a política fiscal em garantir o superávit
primário pretendido, sem pretenderem desempenhar o papel de impulsionar
diretamente o crescimento da economia. Este papel caberia aos capitais privados;
o papel das políticas monetária e fiscal para o crescimento seria
fundamentalmente o de ganhar credibilidade, para que os capitais privados tenham
confiança para investir. A liberalização dos fluxos de
capitais teria um papel importante em reforçar esta credibilidade. Nesta
concepção, a dependência da boa vontade dos capitais em
que o país se coloca lhes dá, evidentemente, uma força
excepcional.
Duas ordens de objetivos para controles dos fluxos internacionais de capitais
A necessidade de controles sobre os movimentos internacionais de capitais pode
obedecer a duas ordens de questões:
a) reduzir a vulnerabilidade externa e dar maior autonomia à formulação
da política econômica destes países, sobretudo à
política monetária;
b) permitir a implementação de políticas que busquem transformações
sociais importantes, e que contrariem interesses dos capitais financeiros, e
dos capitais em geral.
Mesmo no primeiro caso, alguma oposição aos interesses dos capitais
seria inevitável. Se o objetivo é impulsionar o crescimento e
o emprego, isto exigirá redução das taxas de juros e, portanto,
redução dos rendimentos dos detentores de riqueza financeira.
O próprio fato da limitação aos movimentos de capitais
em si mesmo implica uma diminuição potencial dos seus rendimentos,
pois reduz as possibilidades de arbitragem entre alternativas de aplicação.
A redução do desemprego, por outro lado, melhora as condições
de reivindicação dos assalariados.
Entretanto, neste caso os capitalistas teriam também vantagens: se viabilizado
um maior crescimento da economia, as possibilidades de investimento lucrativo
se ampliam; se a economia ganha maior solidez e reduz sua vulnerabilidade externa,
o risco de um "calote" não planejado diminui. É possível,
ainda, que nesta situação haja mais paz social. Esta é
a explicação de porque alguns dos países que mais controlam
os fluxos de capitais, e onde o Estado mais intervém na economia, como
a China, são grandes receptores de capitais.
No segundo caso, o aspecto de oposição aos interesses dos capitalistas
cresce. Mesmo aí, no entanto, as vantagens para os capitalistas citadas
acima não precisam desaparecer completamente. De qualquer maneira, a
necessidade de controlar os fluxos internacionais de capitais fica mais evidente.
Elementos de uma política econômica e social alternativa
Sem pretender desenvolver de modo abrangente um projeto de políticas
alternativas permitidas pela imposição de controles sobre os movimentos
de capitais, podemos abordar esta questão com uma divisão em dois
tipos de políticas, seguindo as duas ordens de questões citadas
na seção anterior:
a) a redução da vulnerabilidade externa e o ganho de autonomia
na formulação da política econômica permitem implementar
uma política voltada para o crescimento econômico e a redução
do desemprego;
b) uma política como esta pode, além disso, combinar-se com elementos
que representem um início de um processo de transformações
sociais mais amplas, que não precisam limitar-se a reformas dentro do
capitalismo.
Os temas incluídos na alínea a têm sido tratados por diversos
autores, e não serão desenvolvidos aqui. Citemos apenas algumas
medidas necessárias:
1) o controle dos fluxos de capitais deve ser complementado, na área
externa, com uma política de manutenção de uma taxa de
câmbio favorável às exportações e de acumulação
de reservas;
2) na área monetária, deve ser abandonado o atual modelo, baseado
em metas de inflação e no uso, diante de qualquer aceleração
de preços, qualquer que seja a sua origem, do método de elevar
os juros ;
3) o conceito de "superávit fiscal primário" deve ser
abandonado, do mesmo modo que toda a metodologia que lhe dá base (desenvolvida
pelo FMI), que implica dar às despesas financeiras uma importância
maior do que a qualquer outro tipo de gasto público; o objetivo de evitar
o crescimento da dívida pública como proporção do
PIB deve ser alcançado por meio da renegociação desta dívida
(além da justiça, esta negociação deve estabelecer
um nível de gastos com o serviço da dívida pública
compatível com as necessidades de investimento público e de gastos
sociais), da redução dos juros pagos pelo setor público
e do maior crescimento da economia.
Os temas incluídos na alínea b exigem um esforço de repensar
a concepção de socialismo e de transição. Algumas
pistas nesta direção podem ser:
1) Uma idéia diretriz pode ser a seguinte: tudo o que reforça
a consciência e a auto-organização dos trabalhadores e do
povo, contrapondo-se, portanto, à dicotomia entre direção
vertical pelo Estado de um lado e passividade dos cidadãos de outro;
que se contrapõe à lógica do mercado e da concorrência
em favor da cooperação e de um planejamento dos interesses comuns;
e que desenvolve os valores da igualdade, da democracia autêntica e da
solidariedade, caminha na direção do socialismo.
2) A luta pela soberania nacional certamente será um elemento chave.
Além do controle sobre os fluxos internacionais de capitais, deve incluir
a recusa da tutela do FMI e do Banco Mundial, o enfrentamento da dívida
externa (por exemplo, com suspensão de seu pagamento e realização
de uma auditoria sobre os termos em que foi contraída), a revisão
dos processos de privatização (que em grande parte foram processos
de desnacionalização), o estabelecimento de controles e limites
para a remessa de lucros das multinacionais.
3) A defesa da soberania deve combinar-se com a luta por uma outra ordem internacional.
Não há nenhuma possibilidade de que os países dependentes
possam inserir-se na ordem internacional vigente de forma soberana. À
mundialização do capital e dos mercados é preciso opor
a solidariedade e o internacionalismo dos povos. As relações internacionais
não devem ser entregues à lógica dos mercados desregulados;
devem ser construídas conscientemente por cada país, através
de acordos bilaterais e fóruns de negociação adequados.
É justamente isto que vem sendo chamado de "uma outra mundialização"
ou de "desglobalização" pelo movimento internacional
de luta contra a globalização neoliberal que vem se desenvolvendo
nos últimos anos.
4) Em direta contraposição às concepções
neoliberais, é preciso rechaçar a idéia de que a regulação
da economia deva caber fundamentalmente aos mercados. O Estado deverá
ter a capacidade de coordenar as atividades econômicas, de modo que elas
tenham coerência com um projeto de desenvolvimento democrático
e popular, de modo que haja uma redução crescente das desigualdades
sociais e regionais, e ainda de modo a estimular a incorporação
do progresso técnico. Para isto, não é preciso estatizar
toda a economia, mas é necessário que exista um setor público
importante, e ao mesmo tempo construir formas de controle social.
5) Com relação à política macroeconômica,
será preciso retomar, de maneira crítica, a agenda do keynesianismo
e do desenvolvimentismo que prevaleceram desde o pós-segunda guerra até
os anos 1970, e ao mesmo tempo incorporar alguns dos aspectos mais radicais
propostos pelo próprio Keynes, como uma política de redução
das taxas de juros a longo prazo, levando à "eutanásia do
rentista".
6) O controle social sobre o Estado deverá incluir formas de democratização,
como a do orçamento participativo.
7) É importante estimular todas as formas de auto-organização
e autogestão na economia, isto é, a todas as formas de cooperativismo
e de associativismo, que vêm sendo chamadas, no seu conjunto, de economia
solidária. O movimento cooperativista vem crescendo nos últimos
anos no Brasil a partir de duas vertentes complementares. No campo, a partir
da organização de cooperativas impulsionada pelo MST. Nas cidades,
porque a crise do emprego estimula os trabalhadores a buscarem alternativas
às empresas capitalistas, e às vezes a assumirem a direção
de empresas que faliram e foram abandonadas por seus donos.
8) Todas estas transformações nas relações econômicas
poderiam implicar uma alteração significativa na correlação
de forças entre as classes, em favor dos trabalhadores e dos setores
populares, e em detrimento dos proprietários de capital. Uma economia
em que formas de cooperação e relações de solidariedade
substituam progressivamente o funcionamento do mercado teria começado
a perder seu caráter capitalista; estaria aberto um processo de conflito
entre a lógica mercantil-capitalista, ainda dominante, e a lógica
do atendimento aos interesses sociais, isto é, a lógica do socialismo.
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